A CIGARRA E A FORMIGA (La Fontaine)
A cigarra, sem pensar
em guardar,
a cantar passou o verão.
Eis que chega o inverno, e então,
sem provisão na despensa,
como saída, ela pensa
em recorrer a uma amiga:
sua vizinha, a formiga,
pedindo a ela, emprestado,
algum grão, qualquer bocado,
até o bom tempo voltar.
"Antes de agosto chegar,
pode estar certa a senhora:
pago com juros, sem mora."
Obsequiosa, certamente,
a formiga não seria.
"Que fizeste até outro dia?"
perguntou à imprevidente.
"Eu cantava, sim, Senhora,
noite e dia, sem tristeza."
"Tu cantavas? Que beleza!
Muito bem: pois dança agora..."
Fábulas de La Fontaine, 1992
No mundo existem aproximadamente 10.000 espécies de formigas. São insetos muito organizados, que possuem um sistema de comunicação sofisticado, através de feromônios e sinais químicos, ainda não totalmente compreendido pelo homem. Uma colônia de formigas é composta por milhares de indivíduos, todos assexuados e liderados por uma única rainha. O que é interessante é que para elas um indíviduo é apenas uma parte integrante da colônia, como se fossem minúsculas partes de um único organismo.
Na fábula de Fontaine, como em qualquer outra, percebe-se um certo caráter disciplinar, ressaltando a característica desejável das formigas de cooperação e trabalho em conjunto para viver em comunidade. Eu admiro essa inclinação das formigas para a organização e o trabalho...mas também admiro a audácia da cigarra em viver intensamente e plenamente... Acho que na vida tudo é uma questão de equilíbrio...existe momentos para ser formiga e momentos para ser cigarra...